A Loucura do Bastardo Electrónico

A Loucura do Bastardo Electrónico é um relato fugaz das desventuras anacrónicas de um anti-herói comum.

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Mar 25

Capítulo Terceiro

(…) na altura em que se desviava do raio que quase o partiria, não fosse os seus reflexos sortudos, bateu com força, de cabeça, numa das colunas da sala. Viu tantas, mas tantas estrelas que teria pensado, caso não tivesse ficado automaticamente inconsciente, que mergulhava no próprio sol.

Por momentos, que pareceram anos, voltou à consciência e apercebeu-se de outra presença. Abrir os olhos era-lhe difícil mas os seus sentidos avisavam-no de que deveria se levantar. Parecia que Margarida lhe sussurrava aos ouvidos, estranhas palavras de afecto e consolação.
Abriu os olhos e nem queria acreditar que ela se encontrava à sua frente.
-Margarida! - tentou dizer ao levantar-se e ela sorriu.
-Isto é mesmo verdade, meu amor? - continuou.
Margarida falava-lhe sem abrir a boca, um feito que lhe arrepiou a espinha:
-Precisas de acordar…
-Oh diabo… Bem me parecia que…
-Não te consigo proteger durante muito mais…
-Mas como é que estás aqui agora?
-Isso agora não interessa, precisas…
-E como é que fazes esse truque com os lábios?
-Tens de perceber que…
-É que isso é um truque bem catita, Mar…
Pela segunda vez viu estrelas mas estas doeram-lhe mais pois foram resultado do contacto da mão de Margarida com a sua face, com uma velocidade que nem mesmo em sonhos…
-ACORDA!

Levantou-se como uma mola, a respiração ofegante. Escuridão à sua volta. Algo se movia nas sombras à medida que a sua visão se ia adaptando à fraca luminosidade.
-Oh diabo… Que raios..?
Não chegou a terminar a frase pois o que quer que se mexesse nas trevas encaminhava-se para ele e era gigantesco e viscoso. Num salto colocou-se de frente para a vil criatura mas os seus instintos (ou seria Margarida?) avisavam que algo estava ainda mais errado.
Tacteou a parede e encontrou uma saída enquanto gritou em pensamentos:
-Apre! São mais “q’às” Mães!
Quase tropeçou nas escadas mas não quis saber se era outra armadilha para onde estas o levavam. Engatado pela adrenalina, reparou que tinha a sua fiel espada na mão…


Feb 28

Capitulo Quarto

”(…) e subiu as escadas, num ápice. Som de coisas a rastejar, nada parecido com o som dos vizinhos do andar de cima a armarem-se em desenhadores de interior às três da manhã, coisas viscosas e velozes, a perseguirem-no com uma ânsia devoradora e maligna. E eis, o choque: tinha chegado a um imenso pátio banhado pelo céu estrelado (o qual, apenas por acaso, se encontrava bastante encoberto nesta altura) sem qualquer saída visível.

-Olha a porra - exclamou enquanto recuperava o fôlego, bafejando após o duro exercício de fuga. O som das criaturas era cada vez mais audível. Como se fosse um homem são temporariamente possuído pela loucura, gritava de frustração cada vez que chegava a um sítio menos iluminado do pátio e confirmava a sinistra realidade:

-Gaita, estou preso.

A dor que tomou conta de si era apenas suplantada pela ideia de ter uma nesga de pele presa num fecho das calças. O silêncio da noite continuava a ser maculado pelo som da desgraça que se aproximava. O desespero deu lugar a um riso miudinho, o qual se se sentiu à vontade de crescer cada vez mais até chegar a uma gargalhada quase maquiavélica. Tão surreal era esta gargalhada que por instantes, o seu inimigo hesitou na sua demanda.

-Venham lá então, seus vermes do inferno, fantasmagóricas larvas que minha espada trespassará! Malditas térmitas! Ide a corroer daqui para fora! Vosso reinado acabou, tal como o cavalo… O meu reino por uma ginja!

E com este grito de guerra, digno dos apêndices dos livros de história, atirou-se de espada em riste, varrendo tudo o que se encontrava à sua frente num banho de sangue, suor e gosma. (…)”

in A Loucura do Bastardo Electrónico.