Capitulo Quarto
”(…) e subiu as escadas, num ápice. Som de coisas a rastejar, nada parecido com o som dos vizinhos do andar de cima a armarem-se em desenhadores de interior às três da manhã, coisas viscosas e velozes, a perseguirem-no com uma ânsia devoradora e maligna. E eis, o choque: tinha chegado a um imenso pátio banhado pelo céu estrelado (o qual, apenas por acaso, se encontrava bastante encoberto nesta altura) sem qualquer saída visível.
-Olha a porra - exclamou enquanto recuperava o fôlego, bafejando após o duro exercício de fuga. O som das criaturas era cada vez mais audível. Como se fosse um homem são temporariamente possuído pela loucura, gritava de frustração cada vez que chegava a um sítio menos iluminado do pátio e confirmava a sinistra realidade:
-Gaita, estou preso.
A dor que tomou conta de si era apenas suplantada pela ideia de ter uma nesga de pele presa num fecho das calças. O silêncio da noite continuava a ser maculado pelo som da desgraça que se aproximava. O desespero deu lugar a um riso miudinho, o qual se se sentiu à vontade de crescer cada vez mais até chegar a uma gargalhada quase maquiavélica. Tão surreal era esta gargalhada que por instantes, o seu inimigo hesitou na sua demanda.
-Venham lá então, seus vermes do inferno, fantasmagóricas larvas que minha espada trespassará! Malditas térmitas! Ide a corroer daqui para fora! Vosso reinado acabou, tal como o cavalo… O meu reino por uma ginja!
E com este grito de guerra, digno dos apêndices dos livros de história, atirou-se de espada em riste, varrendo tudo o que se encontrava à sua frente num banho de sangue, suor e gosma. (…)”
in A Loucura do Bastardo Electrónico.